A última edição de 2025 do programa Cena Aberta promoveu um diálogo aprofundado sobre espiritualidade, ancestralidade e as perspectivas que se desenham para o próximo ano. Transmitido pela TV Assembleia, o episódio final do ano convidou a audiência a uma reflexão sobre os ciclos de vida e a busca por orientação em períodos de transição. A jornalista Alexandra Teodoro conduziu a conversa com o babalorixá Flávio de Ogun, que compartilhou valiosas leituras espirituais sobre o fim do ano, as energias de 2026 e o intenso movimento vivenciado nos terreiros neste período. O programa Cena Aberta destacou-se por abordar temas que ressoam com a busca humana por equilíbrio e sentido.
A busca por orientação espiritual no fim de ciclo
O encerramento de um ano-calendário é, para muitas culturas e tradições, um período intrinsecamente ligado à reflexão, à renovação e à projeção de um novo futuro. É um momento de balanço, onde se avalia o que passou e se planeja o que virá. Segundo o babalorixá Flávio de Ogun, essa dinâmica se intensifica sobremaneira no campo espiritual, culminando em uma procura acentuada por orientação, rituais e a renovação de energias. Esta busca não se limita apenas à observância de tradições religiosas milenares, mas reflete uma necessidade humana universal por equilíbrio emocional, proteção contra adversidades e caminhos mais claros para os desafios e oportunidades que o futuro reserva.
Em terreiros de religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, o fim de ano é marcado por uma efervescência de atividades. Consultas aos orixás e guias espirituais tornam-se mais frequentes, rituais de purificação e fortalecimento são realizados com grande devoção, e a comunidade se une em celebrações que visam harmonizar as energias individuais e coletivas para a virada do ciclo. Banhos de ervas específicas para limpeza e atração de boas vibrações, oferendas simbólicas para agradecer e pedir proteção, e a realização de ebós (rituais de sacrifício ou oferenda para afastar energias negativas e atrair prosperidade) são exemplos de práticas que ganham relevância. Este período é visto como uma janela de oportunidade para fechar ciclos de maneira consciente, dissipar o que não serve mais e abrir-se para as novas influências que o ano vindouro trará, sempre com a orientação e a benção das divindades e ancestrais.
A dinâmica dos terreiros e a renovação de energias
O “movimento intenso” vivenciado nos terreiros, como pontuado por Flávio de Ogun, não é meramente ritualístico; ele é profundamente enraizado na compreensão da espiritualidade como um elemento ativo e transformador da vida cotidiana. As pessoas buscam nos babalorixás e iyalorixás (pais e mães de santo) não apenas previsões, mas um suporte para a tomada de decisões, um alento em momentos de aflição e uma bússola moral para a condução de suas vidas. A crença é que, ao compreender as energias regentes do próximo ano – frequentemente associadas a orixás específicos que estarão “em alta” – é possível se preparar melhor, evitando ciladas e potencializando oportunidades.
Essa renovação de energias vai além da esfera individual. Os terreiros, como centros comunitários e espirituais, também passam por seus próprios rituais de limpeza e fortalecimento coletivo. A preparação para o novo ano engloba a manutenção dos espaços sagrados, a celebração da fé em comunidade e o fortalecimento dos laços fraternos entre os membros. É um período de reafirmação da identidade religiosa e cultural, onde a tradição oral e a sabedoria ancestral são transmitidas e vivenciadas, garantindo a continuidade de uma herança espiritual rica e complexa. A busca por essa renovação reflete o desejo intrínseco do ser humano de encontrar significado, resiliência e esperança diante das incertezas da existência.
Desmistificando a fé: o papel do babalorixá e as religiões de matriz africana
A entrevista com Flávio de Ogun também serviu como uma plataforma essencial para desmistificar as religiões de matriz africana, frequentemente alvo de preconceito e desinformação no Brasil e em outras partes do mundo. O babalorixá, ao explicar seu título e sua conexão com o orixá Ogun, abriu um canal para uma compreensão mais autêntica e respeitosa dessas tradições. Babalorixá, de origem iorubá, significa literalmente “pai de santo” ou “pai de orixá”, designando o líder espiritual que, por meio de anos de estudo, iniciação e dedicação, adquire o conhecimento e a autoridade para conduzir espiritualmente a comunidade de um terreiro. Ele é o guardião dos rituais, o intérprete dos orixás e o conselheiro dos fiéis, desempenhando um papel multifacetado que abrange desde a prática religiosa até o suporte social e psicológico.
O papel do babalorixá é crucial para a preservação e a transmissão da sabedoria ancestral, das rezas, dos cantos, das danças e das complexas mitologias que sustentam o Candomblé e a Umbanda. Mais do que um sacerdote, ele é um mestre, um curandeiro e um elo vital entre o mundo material e o espiritual. Através de sua vivência e sua palavra, ele busca elucidar as práticas e os valores que fundamentam essas religiões, combatendo narrativas distorcidas que as associam, de forma errônea, a rituais maléficos ou a práticas de feitiçaria, ignorando sua profundidade filosófica e seu papel cultural.
O significado de babalorixá e a espiritualidade de Ogun
Flávio de Ogun personifica essa missão, afirmando: “Sou um homem de Ogun, iniciado e guiado por ele. Vivo essa espiritualidade no cotidiano, na indumentária e na missão”. Essa declaração ressalta a profundidade da ligação entre o babalorixá e seu orixá regente. Ogun é uma divindade yorubana associada ao ferro, à guerra, ao trabalho, à tecnologia, aos caminhos e à lei. É o orixá que abre os caminhos, que defende e que impulsiona o progresso. Ser “um homem de Ogun” significa encarnar essas características de força, determinação, justiça e busca pela verdade. A espiritualidade, para ele, não é algo separado da vida diária, mas uma lente através da qual toda a existência é compreendida e vivida, manifestando-se na forma de vestir, nos hábitos, nas escolhas e na dedicação à sua comunidade.
A importância de desmistificar essas religiões reside na necessidade premente de combater a intolerância religiosa e o preconceito. Ao longo da história do Brasil, as religiões de matriz africana foram e continuam sendo alvo de perseguição e estigmatização, resultando em violência e discriminação contra seus praticantes. Compartilhar o conhecimento sobre seus princípios éticos, sua profunda conexão com a natureza, a veneração aos ancestrais e sua valiosa contribuição para a cultura e identidade brasileiras é um passo fundamental para promover o respeito e a coexistência pacífica. A conversa no programa Cena Aberta oferece um valioso panorama que reforça a complexidade e a beleza dessas tradições, incentivando o diálogo e a compreensão mútua em uma sociedade plural.
Reflexões finais sobre espiritualidade e futuro
A edição de encerramento do programa Cena Aberta em 2025 consolidou-se como um momento crucial para a reflexão sobre a intersecção entre espiritualidade, ancestralidade e as projeções para o futuro. A contribuição do babalorixá Flávio de Ogun e a condução da jornalista Alexandra Teodoro ofereceram ao público uma perspectiva enriquecedora sobre a importância de buscar orientação e renovação espiritual em períodos de transição, como o fim de ano. Mais do que previsões, o debate sublinhou a necessidade de autoconhecimento, a valorização das tradições e o combate à desinformação, fortalecendo a compreensão sobre as religiões de matriz africana e seu papel fundamental na tapeçaria cultural brasileira. O programa reafirmou o poder do diálogo na construção de uma sociedade mais justa e respeitosa.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O que é o programa Cena Aberta?
O Cena Aberta é um programa de entrevistas e debates transmitido pela TV Assembleia, conhecido por abordar temas relevantes da sociedade, cultura e espiritualidade, promovendo o diálogo e a reflexão com convidados especializados.
2. Quem é Flávio de Ogun e qual o significado de babalorixá?
Flávio de Ogun é um babalorixá, que, na tradição iorubá, significa “pai de santo” ou “pai de orixá”. Ele é um líder espiritual das religiões de matriz africana, responsável por guiar e conduzir a comunidade do terreiro, transmitindo a sabedoria e os rituais ancestrais. Seu nome “de Ogun” indica sua profunda conexão e iniciação com o orixá Ogun.
3. Por que o fim de ano é um período de intensa busca espiritual?
O fim de ano é tradicionalmente visto como um ciclo de encerramento e renovação. Muitas pessoas buscam orientação espiritual para refletir sobre o ano que passou, liberar energias negativas, buscar proteção, equilíbrio e obter clareza sobre os caminhos e desafios que o novo ano pode apresentar. Terreiros e centros espirituais intensificam suas atividades para atender a essa demanda por rituais de purificação e fortalecimento.
4. Quais são as principais mensagens sobre as religiões de matriz africana apresentadas no programa?
O programa enfatizou a importância de desmistificar e combater o preconceito contra religiões como o Candomblé e a Umbanda. Destacou a riqueza de suas filosofias, a conexão com a natureza, a veneração aos ancestrais, e o papel dos líderes espirituais como guardiões de uma sabedoria milenar, buscando corrigir narrativas distorcidas e promover o respeito.
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Fonte: https://www.al.pi.leg.br