O cenário da violência contra a mulher no Piauí tem sido objeto de análise detalhada por parte do Observatório da Mulher Piauiense, um braço da Secretaria das Mulheres do Piauí (Sempi). Dados recentes, referentes ao período de janeiro a novembro de 2025, revelam um crescimento notável nas notificações de violência e na ampliação dos atendimentos em todo o estado. Essa tendência, que indica tanto uma maior ocorrência de casos quanto uma crescente confiança das vítimas nos serviços de apoio, reforça a urgência e a importância das políticas públicas de enfrentamento e da contínua expansão da rede de proteção às mulheres piauienses, conforme destacado pelas autoridades estaduais.
Crescimento das denúncias e a resposta da rede de atendimento
Os relatórios compilados pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), Poder Judiciário, Casa da Mulher Brasileira (CMB), Centro de Referência da Mulher Francisca Trindade e pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – ilustram uma mudança significativa no panorama da violência de gênero.
Aumento contínuo de boletins de ocorrência
De acordo Este aumento não foi isolado, mas se manteve de forma contínua ao longo de 2025, com uma alta de 12,25% do primeiro para o segundo trimestre, e de 6,55% do segundo para o terceiro trimestre. Essa progressão sugere não apenas uma possível intensificação da violência, mas também uma maior procura pelos serviços especializados e uma potencial ampliação da confiança das mulheres na rede de atendimento, encorajando-as a denunciar.
Medidas protetivas e a evolução dos registros
No que tange às Medidas Protetivas de Urgência (MPUs), o período de janeiro a novembro de 2025 registrou a concessão de 7.761 dessas medidas, um número que representa 95,7% do total emitido em todo o ano de 2024. O relatório também aponta um aumento de 53% nas MPUs não concedidas, o que pode indicar inconsistências na documentação ou nas análises. Por outro lado, as revogações de MPUs caíram expressivamente em 86,7%, sugerindo uma maior duração das medidas concedidas, um monitoramento mais eficaz ou até mesmo uma redução na reincidência de violência após a aplicação da proteção.
Feminicídios: análise dos casos e a lacuna de proteção local
Apesar dos avanços na rede de atendimento, o Piauí ainda enfrenta o grave desafio dos feminicídios, crimes bárbaros que ceifam a vida de mulheres em razão de seu gênero.
Perfil das vítimas e incidência geográfica
Entre janeiro e novembro de 2025, o estado registrou 35 casos de feminicídio, distribuídos por 23 cidades. Destes municípios, 60,8% não possuem Organismos de Políticas para Mulheres (OPMs), estruturas essenciais para a articulação e implementação de políticas de gênero. Os territórios com maior incidência foram Entre Rios, Vale do Guaribas e Planície Litorânea. Teresina, a capital, liderou com 8 casos, seguida por Parnaíba, com 6. O perfil predominante das vítimas é de mulheres pardas (77,1%), com idade entre 30 e 39 anos (25,7%), e a maioria dos crimes ocorreu dentro de suas residências. Notavelmente, 60% dos feminicídios ocorreram no primeiro trimestre do ano, utilizando métodos como arma branca (37,1%), arma de fogo (20%) e envenenamento (11,4%).
A relevância dos Organismos de Políticas para Mulheres (OPMs)
A secretária das Mulheres, Zenaide Lustosa, enfatiza a importância crucial dos OPMs na prevenção e enfrentamento à violência. Segundo a gestora, esses organismos municipais são responsáveis por coordenar e executar ações de prevenção, atendimento, campanhas educativas, formação de redes locais e integração com a rede estadual. Lustosa ressalta que a ausência de OPMs torna os municípios mais vulneráveis, diminuindo sua capacidade de resposta e articulação diante dos casos de violência. A expansão e o fortalecimento dessas parcerias entre estado e prefeituras são vistos como fatores que contribuem para o aumento dos boletins de ocorrência, uma vez que demonstram a confiança crescente das mulheres na capacidade do Estado de acolhê-las e protegê-las.
Fortalecimento das políticas públicas e a autonomia feminina
O Governo do Piauí tem investido na ampliação e na transversalidade de suas políticas públicas para combater a violência contra as mulheres, buscando não apenas a proteção imediata, mas também a promoção de autonomia.
Iniciativas governamentais e o empoderamento econômico
A secretária Zenaide Lustosa destaca que as ações governamentais focam na autonomia econômica das mulheres. Isso inclui projetos, programas e ações que garantem qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho. Acredita-se que o empoderamento financeiro é fundamental para romper os ciclos de violência, muitas vezes mantidos pela dependência econômica em relação ao agressor. Ao possibilitar que as mulheres alcancem dignidade e cidadania por meio de sua independência, o estado busca fornecer ferramentas para que elas possam sair de relacionamentos abusivos de forma segura e sustentável.
Campanhas e a expansão da rede de apoio
Além do empoderamento econômico, o governo tem fortalecido o trabalho nos municípios por meio de campanhas educativas e ações de prevenção. A expansão territorial das políticas é uma estratégia chave para garantir que o apoio chegue a todas as regiões do Piauí, especialmente aquelas mais afastadas e com menor estrutura. Essa articulação contínua e o fortalecimento da rede de proteção são apontados como elementos que explicam o aumento dos boletins de ocorrência, indicando que as mulheres estão, de fato, buscando apoio e confiando na capacidade do Estado de oferecer acolhimento dentro da rede de atendimento à violência doméstica e familiar.
Conclusão
Os dados do Observatório da Mulher Piauiense traçam um panorama complexo e desafiador da violência de gênero no Piauí. O crescimento das notificações e a ampliação dos atendimentos são indicadores ambivalentes: refletem a persistência da violência, mas também sinalizam uma maior conscientização, confiança nas instituições e acesso aos serviços de proteção. A alarmante incidência de feminicídios, especialmente em municípios desprovidos de Organismos de Políticas para Mulheres, sublinha a urgência de fortalecer a presença e atuação desses organismos. É imperativo que as políticas públicas continuem a ser expandidas, com foco na autonomia econômica e na integração das redes de apoio, para que o Piauí possa efetivamente avançar na construção de uma sociedade mais justa e segura para todas as mulheres.
FAQ
O que o Observatório da Mulher Piauiense revelou sobre a violência contra a mulher no estado?
O observatório revelou um crescimento de 28,46% nos boletins de ocorrência e um aumento na concessão de Medidas Protetivas de Urgência entre janeiro e novembro de 2025, indicando tanto a persistência da violência quanto a maior procura por serviços de apoio.
O que são os Organismos de Políticas para Mulheres (OPMs) e qual sua importância?
OPMs são estruturas municipais responsáveis por articular, implementar e monitorar políticas de gênero, incluindo prevenção, atendimento e campanhas. Sua presença é crucial para fortalecer a rede de proteção e reduzir a vulnerabilidade dos municípios à violência.
Como o Governo do Piauí está combatendo a violência contra as mulheres?
O governo está ampliando políticas públicas de forma transversal, com foco na autonomia econômica das mulheres por meio de qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho. Além disso, promove campanhas educativas, ações de prevenção e a expansão territorial da rede de apoio.
Para mais informações sobre as ações de enfrentamento à violência contra a mulher no Piauí, visite o site da Secretaria das Mulheres.
Fonte: https://www.pi.gov.br