O silêncio em torno da vice-governadoria não é ruído, é método. No jogo pesado da política piauiense, a ausência é, muitas vezes, a forma mais eficaz de presença. O que se vê não é improviso, mas gestão de risco, controle de agenda e retenção de ativos estratégicos.
Ao sinalizar luz verde para Júlio César e Marcelo Castro no Senado, o Palácio opera no modo contenção preventiva. Júlio carrega densidade municipal, musculatura territorial e um custo político elevado; Marcelo atua no registro do baixo atrito, preservando capital simbólico e reduzindo volatilidade. Ambos seguem na mesa porque sabem que a partida ainda não entrou na fase decisiva.
Manter a vice em aberto é segurar a última carta. É bloquear movimentos unilaterais, neutralizar impulsos de deserção e forçar a base a operar em equilíbrio instável, onde ninguém rompe porque todos aguardam. A vaga deixa de ser promessa e passa a ser instrumento de disciplinamento. Quem se antecipa se desvaloriza; quem pressiona, se expõe.
Nesse ambiente, ganha relevo o movimento de Washington Bandeira, secretário de Educação. Ao confirmar, já na segunda quinzena de agosto, que recebeu convite do governador Rafael Fonteles para compor a chapa como vice, ele adota uma postura cirúrgica: coloca-se como objeto da decisão, não como ator que fura fila. Não tensiona, não reivindica, não cria fato consumado. Apenas sinaliza disponibilidade institucional, reduzindo ruído e evitando leitura de afronta aos demais players.
O jogo, no entanto, é congelado quando Wellington Dias entra em cena. Na reunião com Lula, Rafael, Marcelo e Júlio, o ex-governador exerce seu papel clássico de gestor do tempo político. Ele não decide, mas retira a urgência. Ao congelar o tabuleiro, sinaliza que qualquer gritaria agora é inócua, porque o “tempo da política” ainda não foi aberto. Quem controla o cronograma controla o preço.
Esse congelamento tem efeito direto: impede que aliados elevem a barganha prematuramente. Júlio não pode inflar seu passe, Marcelo não precisa se mover, e a vice permanece como ativo sob custódia, fora do mercado. Wellington, como detentor da semântica do tempo, protege o núcleo do governo de leilões antecipados e mantém a correlação de forças estável.
Rafael Fonteles preserva o comando do tabuleiro, Lula chancela o arranjo de estabilidade, Wellington administra o relógio, e a oposição observa sem capacidade de produzir colapso. A indefinição não é fraqueza: é zona de amortecimento político, pronta para absorver impactos, recompor alianças e recalibrar o jogo na hora exata.
No fim, a vice não é nome, não é anúncio, não é foto. É moeda de controle, válvula de escape, seguro institucional. E, neste jogo, quem domina o silêncio e o tempo domina o poder.
Prof. João Batista Cruz
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